CAPÍTULO 001...
*INÍCIO DO TERCEIRO BLOCO*
CENA 31/ RUAS DA CIDADE/ EXT./ DIA.
Uma onda de repórteres persegue Enéias pelas ruas. Um deles aborda- o na rua.
Repórter –
Contador de Histórias poderia me dá um tempinho?
Enéias –
(educado) Claro, o que quer de mim? (animado)
O repórter começa com a chuva de perguntas.
Repórter –
Como descobriu o seu dom? Porque quis seguir a carreira de contador de histórias? Qual é a satisfação em levar coisas boas pras pessoas?
Enéias –
(confuso) Vamos com calma senhores. Perguntem uma coisa de cada vez. Assim num dô conta de atender aos pedidos (risos).
A CAM mostrará um pouco dessa trajetória que ele vivia diariamente. A impressão é que ele esqueceu de tudo e de todos.
CORTA PARA:
CENA 32/ RUA DO ED. MACAÉ/ CALÇADA/ INT./ DIA.
O carro de Carlos Melo, chega na porta do Ed. Macaé. Recebe um telefonema enquanto estaciona o carro.
Carlos –
Oi! Pode deixar, hoje chego atrasado na firma. Aconteceu uns imprevistos lá em casa, faço hora extra hoje, num tem problema (desliga o telefone). É agora ou nunca. Vou dá uma de bobo, e colocar essas caranguejeiras no elevador...
CAM mostra a frente do edifício, e Carlos entra pelo saguão com uma bolsa.
CORTA PARA:
CENA 33/ ED. MACAÉ/ ELEVADOR/ INT./ DIA.
Carlos Melo, passa despercebido na recepção e se adentra no elevador. Nessa hora, Deusdete sentado na recepção do prédio lendo jornal, percebe a movimentação estranha de Carlos, resolve seguí-lo discretamente. Carlos dentro do cubículo, programa o equipamento pra subir no andar do apto de Enéias. Chegando lá de portas abertas, sem ao menos se preocupar com alguém por ali naquela hora, é observado por Deusdete na pilastra ao fundo de acesso a escada da área de serviço. Local por onde subiu.
Carlos –
(se desfaz da bolsa pendurada nos ombros) Preciso de habilidade, senão alguém me pega. É um serviço muito arriscado (falava pra si mesmo).
Enquanto isso tira da bolsa, um recipiente cheio de aranhas, e colocar-as dentro das frestas do compartimento do elevador, uma forma de assustar seu amigo.
CORTA PARA:
CENA 34/ ED. MACAÉ/ CORREDOR/ INT./ DIA.
Deusdete observa de longe todo o trabalho de Carlos.
Deusdete –
Mais que diabos aquele homem tá fazendo? (curioso) será que é uma vingança? Olha lá se pode, colocar aranha em fresta de elevador. Deve ter algum motivo forte pra ele tá inventando isso (pensativo).
CORTA PARA:
CENA 35/ PLANOS GERAIS DAS PAISAGENS NATURAIS/ EXT./ DIA.
Vista áerea de um monte de paisagens naturais. Praças, movimentação de pessoas fazendo corrida pelas calçadas, um relógio em marca d’água se movimentando pelas paisagens mostrando a passagem do dia para a noite.
CORTA PARA:
CENA 36/ APTO DE CARLOS MELO/ SUÍTE/ INT./ NOITE.
Carlos está pensativo, deitado na cama. Enquanto Renata sai do banheiro secando os cabelos.
Renata –
O que que foi dessa vez? Tá com uma cara...(preocupada).
Carlos –
(mexe na cama) Né nada amor. Pensando algumas coisas da empresa (nisso pega o telefone sem fio do criado mudo).
Renata –
(logo pergunta) Pra quem vai ligar tão tarde? (curiosa).
Carlos –
(responde) Pro Enéias! (seguro) Quero convidar pra ir ao cinema comigo amanhã, topa?
Renata –
(ríspida) Mas nem morta, ir num encontro como esses? Jamais. Mas vá sim, é seu amigo de longa data (refletiu).
CORTA PARA:
CENA 37/ APTO DE ENÉIAS/ SALA/ INT./ NOITE.
Da cozinha, Enéias escuta o telefone tocar. Sai com um avental, e bacia na mão pra atender.
Enéias –
Alô? (desajeitado)...Ah é você! (tom frio)...
CORTA DESCONTÍNUO, para apto de Carlos Melo.
Carlos –
(responde) Sim, ainda tá chateado comigo? Entenda que é pro seu bem, Enéias pelo amor de Deus! (suplica).
Enéias – (completa em off)
O pior que tô! Não posso esconder a profunda decepção que tá me causando (objetivo). Somos amigos há tantos anos, e descobri que nem sequer me apoia.
Carlos –
(defende-se) Se isso fosse verdade, até concordaria com você. O negócio é que precisamos sair pra esclarecer esse mal entendido.
Enéias – (completa em off)
Num me venha com encontros aqui no apto, porque já vi que sempre acaba em merda (adverte).
Carlos –
(conclui) Que tal um cinema? Liguei pra isso, combinar um filme pra relembrar quando éramos jovens. Topa? (na expectativa).
Enéias - (pensativo em off)
Hum...pode até ser! Que horas?
Carlos –
Ás 15:00hs dá pra você?
Enéias –
Sim, boa hora.
A conversa continua em off. CAM sai discretamente do local onde está Carlos, focando em Renata na espreita observando.
CORTA PARA:
CENA 38/ APTO DE ENÉIAS/ COZINHA/ INT./ NOITE.
Depois de desligado o telefone, Enéias retorna pra cozinha, de bacia na mão, preparando o jantar.
Enéias –
(pensativo) Esse encontro promete! Já sei o que vô fazer. É só terminar aqui, ajeitar tudo e bolar alguma coisa pro meu próximo espetáculo. Carlos num perde por esperar (risos).
CORTA PARA:
CENA 40/ STOCK SHOTS DAS CAPITAIS BRASILEIRAS/ EXT./ NOITE.
Vista aérea da movimentada Av: Paulista e seu percurso a noite, Cristo Redentor, Parque Municipal, Pelourinho, e uma diversidade de artigos regionais de artesanato dos quatro cantos do país. Passagem da noite pro dia. Com o relógio em marca d’água movimentando-se entre as paisagens.
CORTA PARA:
CENA 41/ SHOPPING/ CINEMA/ INT./ DIA.
Carlos Melo está a espera do amigo. Levanta quando avista-o chegando.
Carlos –
Oi Eneias, tudo bem amigo? (abraça-o) Que filme vamos assistir? (observando o que ele levava nas costas).
Enéias –
(radiante) Hoje fica por sua conta. Da última vez que viemos no cinema eu fiquei encarregado de escolher o filme.
Carlos –
(confuso) É mesmo? Quando foi a última vez? (curioso)
Enéias –
(envaidecido por lembrar) Há 15 anos atrás (entre risos), depois disso nunca mais viemos.
Carlos –
(se volta pro amigo) Quanto tempo se passou, e ainda continuamos eternos companheiros, num acha?
Enéias –
(evasivo) Bem, eu poderia dizer o mesmo até anteontem, quando provou que não me apoia (tom frustrado).
Carlos –
(sério) É bom pararmos por aqui. Estragar um momento como esses seria uma judiação!
Eneias –
(completa) Concordo plenamente.
A CAM foca Carlos bastante curioso com a capa que Enéias carrega nas costas, sem rodeios pergunta.
Carlos –
O que leva nas costas? (observa)
Enéias –
(ironicamente responde) Ahh, sim. Tava demorando querer saber (risos). É porque preparei um espetáculo depois da seção pipoca, sabe?
Carlos –
(vermelho de vergonha) Não acredito! (perplexo).
Enéias –
(sustenta a ideia) Uai, o que tem demais? É só mais uma nova criada por mim! (seguro).
Carlos –
(expressa revolta) Te chamei pra esse momento fosse nosso, e não pra contar histórias.
Clima tenso no ar.
CORTA PARA:
CENA 42/ CINEMA/ SALA DE PROJEÇÃO/ INT./ DIA.
Carlos está sentado ao lado de Enéias, observando-o comer pipoca, concentrado no filme.
Carlos –
Por favor, Enéias, não faça isso. Que mico!
Enéias –
(se volta pra ele) Olha se for pra ficar me criticando, eu saio daqui agora. Quero ver o filme, pombas! (nervoso).
Carlos Melo continua preocupado, Enéias tranquilo e calmo. CAM foca o momento em que Carlos comenta.
Carlos –
Ele não perde por esperar. Essa festa vai acabar, vai ver.
Nota: aqui vem a passagem do tempo do filme...
CORTA PARA:
CENA 42/ SHOPPING/BILHETERIA DO CINEMA/ INT./ DIA.
A multidão de pessoas sai, após o filme já terminado. Enéias e Carlos são praticamente os últimos a sair da seção, Enéias se planta num canto próximo a bilheteria, as pessoas passam por ali observando toda a organização do Enéias.
Enéias –
É hoje que essas pessoas vão conhecer o talento de um contador de histórias. Carlos Melo, apreensivo, tenta distrair a atenção das pessoas, mas por fim começam a se aglomerar.
Carlos –
Calma pessoal (tenso), ele só tá fazendo um teste.
Ninguém dava ouvidos para Carlos. De repente o aquecimento do violão começa, algumas notas são apuradas. Enéias interage com o público ali presente com suas histórias. Na medida em que tocava e contava, mais pessoas se aproximavam da atração. A fila na bilheteria para os filmes ficaram vazias por uns instantes. Carlos Melo, sai de fininho.
CORTA PARA:
CENA 43/ PORTARIA PRINCIPAL DO SHOPPING/ INT./ DIA.
Carlos Melo está afobado, aborda uns seguranças na porta do shopping.
Carlos –
Por favor, venham comigo. Parece que tem um louco que se abancou na porta do cinema e tá corrompendo local com um tanto de gente. Vamos comigo por favor.
Os seguranças se entreolham e seguem Carlos Melo. A CAM vai mostrar o percurso deles dentro do shopping. Seguindo pelo térreo, subindo escada rolante, etc...
CORTA PARA:
CENA 44/ SHOPPING/ BILHETERIA DO CINEMA/ INT. / DIA.
E chega Carlos Melo, com mais ou menos uns 5 seguranças. A multidão estava grande demais conter aquelas pessoas seria praticamente impossível. Um dos seguranças olhou pra seu parceiro.
Segurança –
Ah, num é nada. É mais um desses contadores de histórias que vem fazer atração no shopping. Num há nada de errado.
Voltam-se pra Carlo Melo.
Segurança –
Senhor num tem nada demais aqui, é só um contador de histórias (explicam).
Carlos –
(pasmo com os seguranças) Será que vocês num percebem que ele tá corrompendo a passagem dentro do shopping.
Segurança –
Senhor, o shopping é um reduto de pessoas capitalistas, nossa filosofia é clara, quanto mais pessoas melhor são os investimentos dos lojistas.
Carlos Melo sentou num banco ali próximo paralisado, enquanto olhava pra Enéias e aquelas pessoas ao seu redor.
CORTA PARA:
CENA 45/ CARRO DE CARLOS/ INT./ DIA.
Clima estranho dentro do carro, Carlos Melo com expressão tensa.
Carlos –
Você num tem noção da vergonha que passei Eneías.
Enéias –
(se volta pro amigo) Que vergonha Carlos? (sereno) Você ficou parado como um expectador, pior é pra mim me sujeitar a encarar toda aquela gente. Quem deveria tá falando isso era eu e não você.
Carlos –
(responde rispidamente) Enéias, tô chegando a conclusão de que tu é um louco. Isso já virou neurose.
Enéias –
(ofendido) Se for pra ficar ofendendo, pode me deixar por aqui mesmo, caminho o restante a pé. Me respeite, em nome da nossa amizade, para com esse preconceito bobo. Enxergue a realidade homem, as pessoas gostam das minhas histórias.
Carlos –
(se volta pro amigo) Meu Deus, como as pessoas podem viver fora da realidade desse jeito, é incrível. Enéias vô te levar em um psiquiatra.
Enéias –
(decide) Pare o carro agora! (ordena) Não quero ir mais contigo até o meu apartamento, chega disso tudo, já cansei.
Carlos Melo para o seu carro, deixa Enéias numa calçada qualquer. Segue a pé até o seu apartamento, a CAM foca Enéias cruzando as ruas da cidade pensativa...
CORTA PARA:
CENA 46/ SAGUÃO DO ED. MACAÉ/ INT./ DIA.
Enéias cruza o saguão do edifício, cabisbaixo, o porteiro observa a chegada dele. Deusdete fica a espreita, aguardando por Enéias, percebe que ele entra no elevador, segue atrás. A CAM mostra toda a movimentação deles (ângulos privilegiados).
CORTA PARA:
CENA 47/ ELEVADOR ED. MACAÉ/ INT./ DIA.
O clima de tristeza está no ambiente. Enéias nem sequer olhou pro lados, afim de contar suas histórias. Deusdete o observa, deduz ter acontecido algum coisa com Enéias, arrisca puxar assunto.
Deusdete –
Oi Enéias tudo bem? (em tom tranquilo).
Enéias –
(para por um instante, levanta a cabeça) Deus? Você falando com essa calma toda? Estou bem, graças a Deus. Estranho você me dando atenção.
Deusdete –
(contorna o comentário) Pois é Enéias, é porque hoje num estou tão tenso como é o de costume. O trabalho acaba com o meu humor, é por isso.
Enéias –
(retruca) Então meu caro colega de edifício, te dou um conselho. Saia desse emprego, porque já faz um bom tempo que você tá de mau humor viu, isso é perigoso pra saúde.
Deusdete sente uma pontada de raiva com o comentário de Enéias, mas contêm a emoção.
Deusdete –
Tem razão Enéias. Agora muito me admira, te ver desse jeito tão triste, tá acontecendo alguma coisa?
Nessa hora o elevador para no andar do apto de Enéias, e sem ele perceber, Deusdete o segue interagindo com ele. A CAM foca o momento dos dois, fechando em seus rostos.
CORTA PARA:
CENA 48/ APTO DE ENÉIAS/ SALA/ INT./ DIA.
Enéias convida Deusdete pra entrar.
Enéias –
Sente-se Deus, vô só colocar esse objeto (o violão que tá em seu braço), no quarto e já volto.
Deusdete –
Pode ir sossegado (sereno) eu aguardo.
A CAM acompanha a movimentação de Enéias no apto.
Deusdete –
(da sala pergunta) falando sério, nunca te vi triste, sempre anda de bem com a vida (tentando puxar alguma coisa).
Enéias - (responde em off do quarto)
Problemas Deus, mais problemas.
Deusdete –
(insiste) Conte-me, quem sabe num posso ajuda-lo? Enéias caminha pelo corredor do apto, chegando até a sala.
Enéias –
De repente, até porque preciso desabafar com alguém. É o meu amigo Carlos, não aceita o fato de eu ser um contador de histórias, tem vergonha do que faço, sabe.
Deusdete –
(com ar pensativo) Mas porque disso tudo, afinal amigos foram feitos pra compreender uns aos outros.
Enéias –
(se volta pra Deusdete) Pois é Deus, Carlos sempre foi um homem que me apoiou em tudo, agora tem mudado muito pra falar a verdade num conhecia esse lado egoísta dele.
Deusdete –
(consolador) Já tentou esclarecer as coisas pra ele? Quem sabe com uma boa con ...
Enéias –
(interrompe) Não, não, não (mexendo com as mãos), Já tentei, é irredutível entende só o lado dele, esquece que a felicidade das pessoas não gira em torno das vontades e os seus desejos.
Deusdete percebe um clima desagradável entre os amigos.
Deusdete –
Nesse caso, você tem outras pessoas com quem pode confiar. Estou a sua inteira disposição, pode contar comigo pro que der e vier, ok? (pega as mãos de Enéias).
Enéias –
(fica surpreso com a postura do vizinho) Vou precisar mesmo. Nesse momento um amigo pra compartilhar minhas tristezas num é nada mal. Pode deixar Deus você será meu novo confidente.
A CAM foca o rosto de Deusdete satisfeito com o seu feito, uma espécie de olhar maquiavélico.
CORTA PARA:
*FIM*