Aprendi que nessa vida, tudo pode acontecer. Fatos inusitados, coisa que nem sequer esperamos. É isso mesmo, tem coisas muito engraçadas que nos fazem rir e repensar o quanto podemos ser espontâneos. Enquanto tomávamos uma das ruas movimentadas do Centro, cruzamos o famoso JK, e bateu aquele típico ronco vindo lá do fundinho. Um fundinho que precisava se alimentar com voracidade, um fundinho que não pôde resistir a padaria da qual entramos sem pensar. Eu e meu grande amigo, de tempos, cujas histórias se colecionavam aos montes. Esta não seria apenas mais uma, e sim marcante como tantas outras.
Nas prateleiras, diversas guloseimas, salgados vistosos, uma verdadeira quitanda à moda mineira. Escolher o que ingerir, era um desafio de gigantes, em meio a receitas tão gostosas, feitas pelos mimos das cozinheiras. Ousávamos por alguns instantes, logo vinha o peso na consciência do tipo: "Porque não optei pela caçarola? Ou porque não busquei minha infância, em recordação as brevidades deliciosas que minha avó fazia?" Foi assim uma verdadeira indecisão! Meu amigo nesse instante, sem pestanejar já estava pedindo a sua bebida, teve uma agilidade impressionante na escolha. Enquanto ainda não sabia entre qual quitute degustar. Um dilema seríssimo, que rendeu críticas efusivas:
_Anda Mait! Já estou comendo. Não consigo ficar com fome por muito tempo. Tudo aqui é gostoso, se for pra ficar pensando, a barriga reclama ainda mais. Vá no impulso! _ dizia meu amigo gorduchinho, daqueles que se contenta com "qualquer" coisa.
_Tem razão. Não sei porque ainda fico fazendo essa hora toda. É bem capaz de num ter nem estômago, a fome me consome._ já me encaminhando com um pratinho cujo conteúdo era amarelinho que nem a gema do ovo do sítio da minha vovozinha. Fiquei enfim com a caçarola, com cara ótima e apetitosa.
![]() |
| Fatos inusitados nos fazem rir surpreendentemente.... |
_Quer saber de uma coisa? Quero provar daquele salgado. Tá com uma aparência dos deuses._comentou lascivamente.
Aproveitando a oportunidade, não pude deixar de acompanhá-lo nessa empreitada. Na verdade me passou a mente, a mesma iniciativa, só que não tive coragem de admitir tamanho rombo que sentia dentro de mim. Seria fome ou estaria cometendo um desses pecados capitais, pra ser mais exato a gula? O negócio é que me empolguei, lançando um comentário:
_ Te acompanho. Não posso deixá-lo assim sozinho com suas papilas gustativas trabalhando vorazmente. Faço minhas palavras as suas.
O imediatismo da decisão, causou-nos uma união pouco característica. Porém foi graças a esse impulso, que algo nos aguardava, por sinal muito inusitado. Um homem simples de aparência convencional chegou meio que despercebido, olhava discretamente ao redor. Seu olhar demonstrava um estágio de enamoramento muito grande com o local. Logo percebemos o pobre homem na mesmíssima situação dos que buscam uma padaria, na intenção de consumirem alguma coisa que lhes reapossem à energia. Sentara no terceiro banco vazio, ao nosso lado. Olhei evasivamente pro meu amigo, foi uma troca simultânea. A atendente cheia de simpatia pergunta o freguês:
_O que deseja comer?_indagou-lhe a moça.
_Me dá uma coxinha de frango por favor?_respondeu prontamente o homem.
O primeiro sinal vermelho tomou conta de nós. Desde quando a coxinha não é de frango? Gargalhadas soaram discretamente. Não em atitude de preconceito, ao contrário. O que chamou a atenção naquele homem, foi sem dúvida a enorme espontaneidade que possuía. Eu e meu amigo ingerimos nossa bebida em goladas desesperadas, pois já não tínhamos mais nada a fazer naquela padaria. Nesse momento, a atendente nem se deu conta do pequeno vacilo do freguês. Algo mais perigritante havia de acontecer, quando deu sequência nos trabalhos:
_O que quer beber?_indagou novamente.
_Huuummm! Pode ser um desses sucos aí ohh!_apontava o homem inocente.
_O senhor prefere: pêssego ou morango?_arrisca a moça.
_Goiaba!_afirmou o homem.
_O quê?_se fez de desentendida a moça, vermelha como um pimentão.
_Goi-a-ba, uai!_novamente o homem ministrou o comentário que resultou em mais gorgolejos discretos.
_Senhor. Não temos suco de goiaba! É de pêssego ou morango.
_Pode ser esse vermelhinho aí.
Tolerar a coxinha de frango foi um esforço de circense. Agora ter de lidar com aquela extrema espontaneidade foi impossível. Os olhares ocorreram numa simultaneidade que nem em gravações dos roteiros de artistas de cinema, se consegue causar este efeito. Nem sequer conseguimos manter um certo drama, o que reinou foi provocação de um dos efeitos mais interessantes que podemos ter em vida. Sabem qual? O riso.
