Infelizmente aprendi a ter horror à criança! Queixei para minha filha, o quanto meu bisneto Narcizinho é sapeca. Foi capaz de esconder à palha do meu fumaceiro, simplesmente para vingar-se dos meus ralhos intempestivos. Apesar daquilo tudo, era terno, e até meloso, porém a idade me deixou ranzinza, coriáceo demais.
O fato do meu horror aos gúris de hoje em dia, se deu através de um acontecimento, quando tinha 9 anos. Me encontrei com o ciúme. Nesse verão, dormia no mesmo quarto que minha irmã. De repente, sem nem saber direito se eu estava acordado ou dormindo, eu senti direitinho que ele estava próximo a nossas camas. Lembro vagamente, que não tinha lua nem estrela, quando eu fui estender o braço para acender a luz, ele não quiz: "Me deixa assim no escuro."
Que medo que me deu.
"Pega aminha irmã" eu falei. "Ali, ó na outra cama. Eu sou pequeno, e ela além de mais velha é mais adorada por meus pais. Pega, pega ela."
"Não. Eu quero é você." Dizia o ciúme com toda calma, logo fui me acalmando. O medo aos poucos foi indo embora.
Nos tempos do ginásio, aprendi que pelo menos alguém gostava de mim, e além do mais, mesmo tendo sido apagado pelo sopro do vento do mar, nunca mais o esqueci. Se tornou meu companheiro. Há essas alturas, sentado na lanchonete de encontro da turma, olhava apaixonadamente para a Berenice. Cheguei a arrancar a folha do meu caderno espiral e escrevi: EU GOSTO MAIS DE VOCÊ DO QUE DA AMÉRICA DO SUL. Nunca mais pude me esquecer que aquele papel passou de mão em mão. Acabei criando um pandemônio no recinto, gargalhadas vinham de todas as direções. E olha que naquele tempo, nem podia me ousar, como meus netos e bisnetos. Uma delas inclusive chegou a me chamar de abominável homem da casa, um ciumento de plantão.
Portanto minha maior dor, é ter de acostumar com certas normalidades que para mim foram colocadas como restrições:
_A senhora deixa suas filhas irem ao baile sozinhas, com rapazes?
_Não vão sozinhas, papai! Vão com os rapazes.
_Pior ainda!
_Papai, nem podemos entrar lá. É coisa de brotos.
_É, não é? Pois me passa depressa o chapéu, para eu ir lá dizer poucas e boas.
Diante do meu costume com aquela experiência dos tempos de meninice, percebi que meu horror a crianças era uma coisa sem pé nem cabeça. Voltei sorrateiro, com o meu chapéu. Queria escrever novamente a minha história, desde que o amor entrasse por aquela janela, assim como aconteceu com o ciúme. Só que minha filha me deu um enorme presente:
_Descobri que paciência é uma forma de amor_ disse-me uma delas sorrindo.
Nesta produção foram usados os recursos da intertextualidade: paráfrase dos contos de Drummond, Ligya Bojunga e Marinho Silva
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